Hugo Tanizaka
Este ensaio reconstrói a história do conceito de esquizofrenia desde as genealogias oitocentistas da degeneração e da psicose até as formulações contemporâneas de espectro psicótico. O argumento central é que a “esquizofrenia” nunca foi uma entidade estável descoberta de uma vez por todas, mas um conceito clínico em disputa, moldado por mudanças na psicopatologia, nas instituições, nos sistemas classificatórios e nas expectativas sociais sobre prognóstico e normalidade. Analisa-se a síntese nosológica de Emil Kraepelin sob o rótulo dementia praecox; a revisão fenomenológica e psicodinâmica de Eugen Bleuler, que introduziu o termo Esquizofrenia; as contribuições da psicanálise, a influência de Kurt Schneider e dos sintomas de primeira ordem; a passagem para critérios operacionais no DSM-III e a convergência parcial entre DSM e CID; e, por fim, as críticas à validade, à heterogeneidade e às fronteiras categóricas do diagnóstico. A conclusão sustenta que o legado histórico do conceito é duplo: ele organizou um campo clínico e permitiu avanços terapêuticos, mas também cristalizou prognósticos pessimistas, estigma e uma falsa aparência de especificidade etiológica. As agendas atuais de dimensionalidade, neurodesenvolvimento e intervenção precoce podem ser entendidas como novas etapas dessa longa negociação entre descrição, explicação e utilidade clínica.