Joshiley Coelho Guindo de Aquino, Nilton Paulo Ponciano
Este artigo analisa a trajetória da Escola Municipal José Eduardo Canuto Estolano - Perequeté, conhecida popularmente como "Perequeté", localizada na área rural do Distrito de Itahum, em Dourados, Mato Grosso do Sul. Problematiza-se um paradoxo de caráter institucional: conquanto a unidade escolar homenageie tal sujeito histórico em sua designação oficial, invisibiliza-se a moradia onde ele residiu, atualmente convertida em mero espaço de armazenamento. O objetivo consiste em apreender o contexto de fundação da escola e analisar em que medida o silenciamento material de sua estrutura arquitetônica remanescente contrapõe-se aos pressupostos teóricos e políticos da Educação do Campo. Metodologicamente, desenvolve-se uma pesquisa qualitativa fundamentada na triangulação entre análise documental (decretos e atas administrativas municipais) e história oral, valendo-se do depoimento de uma educadora pioneira. O referencial teórico-epistêmico articula a sociologia figuracional de Norbert Elias, a Nova História Cultural de Roger Chartier e Pierre Nora, o conceito de memória subterrânea de Michael Pollak, bem como os preceitos pedagógicos de Roseli Caldart. Os resultados indicam que, a despeito das fragilidades infraestruturais e da escassez de insumos, a instituição se consolidou como território de resistência ativa e de protagonismo social de sujeitos historicamente subalternizados. Todavia, a exclusão da antiga habitação no projeto pedagógico revela uma hierarquização patrimonial silenciosa. Esse esquecimento programado corrobora dinâmicas de dominação simbólica que apartam os saberes camponeses do currículo institucionalizado. Conclui-se que a salvaguarda e a ressignificação desse patrimônio edificado constituem imperativos para a justiça social-cognitiva e para a valorização epistêmica do campesinato.