Pablo Késsio Rodrigues de Oliveira, Ana Cláudia Afonso Valladares-Torres, Elias Flávio Quintino de Araújo, Yasmin Gonçalves Ramos Vasconcelos, Altenor Luz Ferreira da Silva, Sheyla Belarmino de Freitas
A saúde da mulher no Brasil constitui campo de disputa entre avanços normativos expressivos e persistência de iniquidades estruturais que atravessam a vida das mulheres em seus diferentes ciclos, com destaque para a sobreposição de gênero, raça e classe social. O presente artigo tem como objetivo analisar, à luz da literatura científica nacional atualizada, as interfaces entre cuidado integral, equidade e determinantes sociais na atenção à saúde da mulher no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Trata-se de um ensaio teórico, de natureza qualitativa, construído a partir de revisão narrativa da literatura em bases indexadas (SciELO, Redalyc e DOAJ), com ênfase em publicações da última década, priorizando estudos recentes. Os resultados evidenciam que a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, ainda que tenha ampliado o reconhecimento de direitos sexuais e reprodutivos, permanece com desafios de implementação que exigem incorporação efetiva da perspectiva interseccional. Observa-se que mulheres negras concentram os piores indicadores de mortalidade materna e são desproporcionalmente afetadas pela violência obstétrica, fenômeno agravado durante a pandemia de covid-19, quando a letalidade materna entre mulheres pretas e pardas superou significativamente a de mulheres brancas. A revisão aponta, ainda, que o cuidado integral à saúde da mulher demanda o reconhecimento de saberes e práticas de autocuidado construídos pelas próprias mulheres negras, para além do modelo biomédico hegemônico. Conclui-se que a superação das iniquidades em saúde da mulher requer políticas públicas orientadas pela interseccionalidade entre gênero, raça e classe, aliadas ao fortalecimento da atenção primária, à qualificação da assistência obstétrica e ao combate ao racismo institucional nos serviços de saúde.