Hermes Melo Teixeira Batista, Rondinelle Alves do Carmo, Tereza Cristina Mota de Souza Alves
Este ensaio propõe uma leitura das Redes de Atenção à Saúde (RAS) do Sistema Único de Saúde (SUS) a partir da alegoria da caverna, apresentada por Platão no Livro VII de A República. Argumenta-se que os pontos de atenção de uma rede fragmentada operam, com frequência, como os prisioneiros da caverna platônica: percebem os demais serviços apenas por suas sombras, encaminhamentos negados, filas, conflitos institucionais e estereótipos, e tomam essas projeções parciais pela totalidade do real. Os Comitês Regionais de Apoio à Governança, instâncias técnicas que dão suporte à Comissão Intergestores Regional (CIR), são analisados como dispositivo de "saída da caverna": espaço em que cada ponto de atenção se apresenta por inteiro, com suas potências e fragilidades, conferindo transparência aos problemas regionais. Sustenta-se, com apoio nos conceitos de dialogia e de ação comunicativa, que a deliberação conjunta nesses comitês permite construir soluções compartilhadas e aperfeiçoar continuamente a RAS rumo a uma rede efetivamente colaborativa. Conclui-se que a analogia platônica ilumina a dimensão epistemológica da governança regional: governar uma rede é, antes de tudo, produzir conhecimento comum sobre ela.