Julia Zenni Lodetti
Este artigo analisa a invisibilidade estrutural do trabalho em cozinhas de delivery vinculadas ao iFood, particularmente através de cozinheiras-proprietárias. Argumenta-se que essa invisibilidade resulta da confluência entre precariedade histórica do trabalho feminino e reorganização contemporânea sob lógica de plataformas digitais. Com base em pesquisa de campo em Florianópolis (2023-2024), demonstra-se que o iFood reorganiza e intensifica a precariedade através de mecanismos de controle. As trabalhadoras vivenciam jornadas extensas, sobreposição entre trabalho e vida, endividamento e custos físicos/psíquicos. Articulando classe, gênero e raça, evidencia-se como a precariedade recai desproporcionalmente sobre mulheres negras e jovens. Propõe-se "fetichização dupla" para compreender como a mediação algorítmica ocultao trabalho de produção.