Orlando Hardt Junior
Neste ensaio, o autor propõe uma leitura retroativa (Nachträglichkeit) de “Hipnose” (Freud, 1891/2025), tornando-o não uma curiosidade histórica, mas um texto que expõe uma questão ainda estruturante da clínica: a parcela inevitável de influência e de modulação do campo relacional na produção de mudanças psíquicas. A “modernidade” atribuída ao texto é aqui operatória e não cronológica: Freud descreveu um método do enquadre, da autoridade simbólica e da responsividade do paciente, reposicionando o problema do poder terapêutico e de seus destinos. À luz de Bion, a hipnose pode ser compreendida como modalidade de continência externa capaz de reduzir turbulências emocionais quando a função alfa se encontra precária. Contudo, essa eficácia não garante transformação e crescimento mental. Sugere, por fim, uma distinção clínica entre dois regimes de mudança – regulação por fechamento e transformação por ampliação da capacidade de pensar – como eixo para sustentar a atualidade do texto freudiano e discutir a ética da técnica psicanalítica.