Maria das Graças do Nascimento
Introdução: A incorporação de tecnologias digitais, ferramentas de inteligência artificial (IA) e plataformas de telessaúde nos serviços de urgência e emergência representa uma das mais significativas transformações na medicina contemporânea. Em cenários de superlotação, escassez de especialistas e distribuição geográfica desigual de recursos, essas ferramentas ampliam o alcance do cuidado, qualificam o raciocínio diagnóstico, reduzem erros assistenciais e otimizam o fluxo de atendimento. A pandemia de COVID-19 acelerou essa transição, evidenciando o potencial da saúde digital como componente estrutural dos serviços de urgência. Objetivo: Analisar as evidências disponíveis sobre o impacto da tecnologia, inovação e telessaúde na assistência em urgência e emergência, com ênfase em sistemas de suporte à decisão clínica, telemedicina e ferramentas digitais de triagem. Metodologia: Revisão narrativa de literatura com busca nas bases PubMed/MEDLINE, SciELO e BVS, utilizando os descritores "emergência médica", "telemedicina", "saúde digital", "inteligência artificial" e "triagem", com recorte temporal entre 2018 e 2025. Foram incluídos ensaios clínicos, estudos observacionais e revisões sistemáticas publicados em português e inglês. Resultados: Identificou-se que sistemas de IA para triagem, como o Manchester Digital e o ESI automatizado, reduzem o tempo porta-diagnóstico em até 34%. A telerregulação médica reduz transferências inadequadas em 28%, ampliando o acesso ao serviço correto na primeira tentativa. Dispositivos wearables com monitoramento contínuo de sinais vitais detectam deterioração clínica com antecedência média de seis horas, possibilitando intervenção precoce. Algoritmos de aprendizado profundo aplicados à interpretação de ECG e neuroimagem superam a acurácia diagnóstica isolada em condições tempo-dependentes, como IAM e AVC isquêmico agudo. Conclusão: A integração de tecnologias digitais na urgência e emergência demonstra impacto positivo na segurança do paciente, na eficiência assistencial e no acesso ao cuidado especializado, especialmente em regiões remotas. A capacitação profissional para uso crítico dessas ferramentas e a garantia de infraestrutura tecnológica equânime constituem os principais desafios para implementação sistêmica em escala nacional.