Mariana Miranda Espírito Santo e Silva, Filomena Aste Silveira
O câncer do colo do útero permanece como importante problema de saúde pública, com impacto diretamente relacionado à cobertura e à efetividade dos programas de rastreamento. A autocoleta vaginal/cérvico-vaginal para detecção de papilomavírus humano (HPV) tem sido proposta como estratégia para ampliar o acesso, especialmente entre mulheres sub-rastreadas e não aderentes aos convites convencionais. Este estudo teve como objetivo sintetizar evidências sobre a autocoleta para teste de HPV no rastreamento do câncer do colo do útero, com foco em desempenho diagnóstico, adesão/cobertura e estratégias de implementação, incluindo evidência brasileira. Foi realizada revisão integrativa da literatura, com busca estruturada no PubMed/MEDLINE (2014–2026; resumo disponível), complementada por busca suplementar direcionada ao contexto nacional, incorporando estudo piloto conduzido em Barretos. Foram incluídos 20 estudos (revisões sistemáticas, meta-análises, ensaios randomizados e estudos de implementação/validação). Ensaios randomizados demonstraram aumento consistente de participação com oferta de kits (por exemplo, 26,3% vs 17,4% em 6 meses; 72% vs 37% em 6 meses) e maior participação em não aderentes persistentes com estratégias de envio não solicitado (27,7% vs 4,8%). O desempenho diagnóstico mostrou equivalência prática em cenários programáticos (detecção de hrHPV 11,5% em autocoleta vs 9,2% em coleta profissional; p=0,40) e validação clínica com alta concordância (PPA 95,2%; NPA 90,0%) e sensibilidade clínica para CIN2+ de 95,8%. O gargalo de efetividade foi o seguimento pós-positivo, com variação relevante entre contextos (59% de comparecimento para seguimento após hrHPV positivo em um ensaio; 92,5% em programa nacional; 93,0% de tratamento no mesmo dia em estratégia “screen-and-treat”). No Brasil, o piloto de Barretos com careHPV™ mostrou hrHPV positivo global de 12,3% (245/2.000), com taxas semelhantes entre autocoleta e coleta por profissional, contribuindo para discussão de viabilidade e adaptação local. Conclui-se que a autocoleta para HPV é estratégia promissora para ampliar cobertura, desde que integrada a testes validados e a linhas de cuidado que assegurem triagem e seguimento adequados após resultados positivos.