Carlos Antônio de Arroxelas Silva, Carmem Lúcia de Arroxelas Silva, Joatan Lucas de Sousa Gomes Costa
As demências configuram um dos principais desafios de saúde pública do século XXI, atravessadas por determinantes sociais e ambientais que ampliam iniquidades. No Brasil, a carga da doença é marcada por desigualdades estruturais, incluindo baixa escolaridade, vulnerabilidade racial e exposição desproporcional à poluição atmosférica. Este estudo analisou a mortalidade por demências em Fortaleza e Região Metropolitana entre 2013 e 2022, sob a ótica das desigualdades socioambientais e do racismo ambiental. Foi conduzido um estudo ecológico, retrospectivo e de base populacional, utilizando 6.501 óbitos registrados no Sistema de Informações sobre Mortalidade/Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (CID-10 F00, F01, F02, F03 e G30). Perfis sociodemográficos foram descritos e correlacionados com indicadores ambientais provenientes do Sistema de Vigilância da Qualidade do Ar/Ministério da Saúde (PM2.5) e dos Boletins de Monitoramento da Qualidade do Ar da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente de Fortaleza. Observou-se tendência ascendente (364 óbitos em 2013 para 982 em 2022; aumento de 170%), com maior concentração em Fortaleza (80%). Houve predomínio de mulheres (68%), idosos ≥ 80 anos (80,2%) e viúvos (51,5%). A distribuição racial mostrou-se semelhante entre brancos (48,9%) e pardos (47,8%), mas o crescimento proporcional foi mais intenso entre pardos (aumento de 256%) e pretos (aumento de 700%), ainda que em números absolutos reduzidos (n=93 em toda a série). O perfil educacional evidenciou forte desigualdade: 62,5% tinham até sete anos de estudo. Durante o período, os níveis anuais de PM2.5 variaram entre 8,0 e 10,6 µg/m³, acima do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (5 µg/m³), enquanto os boletins locais registraram aumento de episódios ‘Moderados’ de poluentes de material particulado inalável (PM10). Conclui-se que a mortalidade por demências na região constitui evento sentinela das iniquidades sociais, raciais e ambientais, reforçando a necessidade de políticas intersetoriais que integrem saúde, ambiente e justiça social.