Marisa Pimenta Rezende Herzog
O terceiro milênio inaugurou no Brasil um novo ecossistema de corrupção, impulsionado pela expansão da internet, popularização de smartphones, redes sociais, fintechs, novos meios de pagamento e criptoativos. Nesse contexto, emerge uma “elite financeira digital”, composta por influenciadores, operadores de infoprodutos, casas de apostas on-line, esquemas de pirâmide disfarçados, agentes de criptoativos e empresas de tecnologia financeira que operam em zonas cinzentas entre legalidade, informalidade e ilegalidade. Esse grupo acumula capital e poder por meio de modelos de negócio ancorados na internet, captando recursos de milhões de indivíduos com baixa transparência e elevada assimetria de informação. Os mecanismos clássicos de controle da corrupção – TCU, CGU, COAF, Banco Central, MPF e tribunais de contas – foram estruturados para enfrentar formas tradicionais de captura do Estado, centradas em contratos públicos e financiamento ilícito de campanhas, não na circulação fragmentada de recursos por plataformas digitais transnacionais, fintechs, bancos digitais e criptoativos. O artigo analisa a lavagem de dinheiro mediada por influenciadores digitais, tomando como estudo de caso a Operação Slots (deflagrada em 2026), com base em dados de órgãos de controle e repressão em níveis federal, estadual e municipal. Demonstra-se como a internet contribuiu para a formação de uma elite financeira paralela que, ao mesmo tempo, explora financeiramente grupos vulneráveis, distorce mercados e projeta influência política, desafiando a capacidade de resposta dos instrumentos jurídicos e institucionais vigentes. A hipótese central é que a digitalização dos meios de geração e circulação de riqueza produziu um descompasso entre a velocidade e a complexidade das novas práticas financeiras e a atuação das instituições de controle, abrindo um espaço de atraso regulatório no qual práticas potencialmente danosas prosperam e, em muitos casos, convergem para formas clássicas de corrupção.