Zainab El Haj Hussein, Christian Fausto Moraes dos Santos
As narrativas produzidas por viajantes e cronistas europeus durante o século XVI constituem fontes privilegiadas para compreender as formas pelas quais a natureza americana foi observada, descrita e interpretada no contexto da expansão ultramarina. Entre os diferentes elementos mobilizados nessas descrições, os aromas e odores desempenharam papel relevante na produção de conhecimentos sobre a biodiversidade colonial, permitindo aos autores traduzir ao público europeu espécies vegetais e ambientes até então desconhecidos. Este artigo analisa as referências olfativas presentes em Viagem à terra do Brasil, de Jean de Léry, e no Tratado Descritivo do Brasil em 1587, de Gabriel Soares de Sousa, buscando compreender como as experiências sensoriais participaram da construção das representações sobre a natureza da América portuguesa. Fundamentado nas contribuições da História dos Sentidos, em diálogo com a História Ambiental e a História Cultural, o estudo demonstra que o olfato ultrapassava a função descritiva, atuando como instrumento de observação, comparação e atribuição de significados ao território colonial. Ao recorrerem a referências familiares ao universo europeu, como o perfume das rosas ou o odor do alho, os cronistas transformavam a experiência sensorial em um recurso de inteligibilidade capaz de aproximar o desconhecido do repertório cultural de seus leitores. Argumenta-se, assim, que as descrições olfativas integraram os processos de produção do conhecimento colonial e contribuíram para consolidar representações sobre a abundância, a singularidade e a alteridade da natureza americana.